27/04/2026 08h32 - Atualizado 27/04/2026 08h44

Energia, guerras e mudanças climáticas

Por Terezinha
para IARGS

Vive-se uma realidade na qual os conceitos de complexidade, futuro e risco adquirem um significado muito mais amplo que outrora imaginado. O que diria Zygmunt Bauman sobre a sociedade contemporânea que ele tão bem descreveu como líquida, fluida e instável, onde valores e instituições sólidas foram substituídos pela inconstância, incerteza, individualismo exacerbado e consumo rápido. A mesma curiosidade se tem sobre o que diria hoje Ulrich Beck sobre o destino da Sociedade de Risco, tal como ele descreveu a fase atual da modernidade, onde a sociedade precisa lidar com perigos que ela mesma criou com o avanço tecnológico, a crise climática, acidentes nucleares e pandemia. Por fim, o que diria James Lovelock, conhecido por desenvolver a Hipótese Gaia, e que propôs que a Terra funciona como um superorganismo autorregulado, no qual a vida interage com os componentes físicos para manter as condições ideais para a vida.

Pensadores fundamentais e inesquecíveis sobre a realidade como eles foram, nos deixaram sozinhos para prosseguir no trabalho de pensar a realidade e encontrar alternativas para a humanidade, cada vez mais enredada em suas próprias teias e interesses. Os alertas foram feitos e defendidos durante as décadas de suas vidas, mas que hoje repercutem muito menos do que deveriam frente ao contexto de guerras, mudanças climáticas e busca pelo domínio das fontes de petróleo.

O desenvolvimento da sociedade global depende essencialmente do acesso à energia, uma realidade que não é nova e que se intensificou no século XIX com a utilização cada vez maior de carvão e petróleo como fontes de energia e matéria prima. A tecnologia desenvolvida a partir dessa fonte energética é a base econômica da atualidade e a gênese do desenvolvimento hoje experimentando, tanto para o bem quanto para o mal. Alternativas energéticas vem sendo desenvolvidas em várias áreas a fim de suprir a incrível demanda energética global, porém com retrocessos visíveis frente às novas demandas geopolíticas.

A queima de petróleo e carvão como base do desenvolvimento da sociedade global, representou também o complexo conflito entre humanidade e o meio ambiente, o qual foi dominado pelo fogo desde os primórdios. Esse longo processo de transformação do meio ambiente gerou a evidente desregulação dos processos naturais com repercussões profundas sobre o clima. A natureza criou o efeito estufa para regular os efeitos da incidência solar e a dissipação proporcional dentro da atmosfera, sendo assim um mecanismo de retenção de calor para a regulação da temperatura média da Terra.

O efeito estufa é um processo natural fundamental para a manutenção de Gaia, porém, a desregulação desse mecanismo e o aquecimento provocado pelas emissões excessivas de gases de efeito estufa revela como as atividades humanas interferem profundamente no complexo mecanismo natural de manutenção das condições favoráveis à manutenção vida. O desenvolvimento tem um custo ambiental pesadíssimo para a Sociedade de Risco.

O fenômeno do aquecimento global é causado pela desregulação do efeito estufa e que, por sua vez, provoca as mudanças climáticas que afetam todo o planeta, podendo provocar eventos de extremos climáticos em qualquer lugar, com duração e intensidade imprevisíveis conforme o Sexto Relatório produzido pelo IPCC, o qual indica que houve um aumento considerável na produção de gases de efeito estufa (as mais altas da história) e que comprometem muito a meta estabelecida em Paris em 2015, de impedir que o aumento da temperatura global média exceda 1,5º C.

O enfrentamento desse processo precisa se dar com o fomento da descarbonização da indústria e investimentos em fontes de energia limpa, além de mudanças no padrão de consumo, tecnologias de baixa emissão e mudanças em padrões que passem a cobrar maior eficiência energética em bens de consumo. Mas como promover ações desse tipo no atual contexto de conflitos armados que têm como base justamente a manutenção e controle das reservas de petróleo? Quais instituições globais podem ainda promover tais ações num contexto de liquidez e fluidez, onde as instituições não conseguem manter sua forma por muito tempo, escorrendo como líquidos?

As guerras modernas dependeram e dependem de vasto suprimento de petróleo. A dinâmica da Segunda Guerra Mundial foi em grande parte orientada pelo acesso ao petróleo, o que foi definitivo na resolução do conflito e na formatação de uma nova ordem geopolítica mundial que se seguiu e que ainda reverbera.

Em 1973 a “crise do petróleo” foi provocada por um conflito regional no Oriente Médio que envolveu Israel, Egito e Síria na Guerra do Yom Kippur, e que levou os países árabes membros da OPEP a decretaram um embargo petrolífero que causou alta drástica nos preços e uma crise econômica global que afetou diretamente o Brasil. Atualmente, a guerra entre Rússia e Ucrânia que se arrasta há mais de quatro anos, e o conflito generalizado e imprevisível no Oriente Médio que expõe as fragilidades das relações internacionais, a incapacidade de organismos supranacionais como a ONU e a dependência do petróleo, que dita os rumos da economia e da sociedade global.

Infelizmente, os relativos avanços na área do combate às mudanças climáticas com foco na substituição de fontes de energia fóssil, acabou sendo ofuscado pelo ambiente beligerante provocado, sobretudo, pela necessidade do domínio das fontes de petróleo. A saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris e a negação das mudanças climáticas, a intervenção americana na Venezuela, as restrições de importação de gás pela Europa da Rússia devido a guerra e a delicada situação do conflito no Oriente Médio, revelam um contexto geopolítico de valorização do petróleo em detrimento dos esforços de substituição da matriz energética predominante por fontes mais limpas e eficientes.

As mudanças climáticas são um desafio global de grande amplitude e complexidade na medida em que as medidas necessárias para tentar frear o processo de desregulação da temperatura da Terra passam por ajustes econômicos, comportamentais e, sobretudo, de adaptação energética. Todos esses desafios não dependem de uma ação específica, mas de um contexto coordenado de decisões políticas que precisam ser tomadas em meio a  interesses muito diversos, sobre os quais dificilmente se alcançará consenso razoável capaz de produzir efeitos. O Brasil é especialmente afetado por todos esses processos em andamento, considerando sua biodiversidade, as reservas de petróleo e a produção agrícola.

Infelizmente não se tem respostas, mas sim muitas questões em aberto frente ao evidente retrocesso da sociedade global. Nossos eternos pensadores diriam em conjunto, que Gaia é um organismo vivo e delicado e que precisa de cuidados, que os riscos e perigos foram provocados pela sociedade que precisa resolver esse legado negativo e que, ainda, as instituições precisam solidificar suas ações em torno de um bem comum.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

BECK, Ulrich. La sociedad del riesgo. Barcelona: Paidós Ibérica, 1998.

LOVELOCK, James. A vingança de Gaia. Tradução: Ivo Korytowski. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2006.

Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

 

André Rafael Weyermüller

Associado do IARGS. Advogado. Docente na Unisinos e Fevale. Especialista, mestre e doutor e pós-doutor em Direito

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